Clima e a agricultura brasileira

Intensificação dos eventos climáticos extremos: uma busca pela mitigação dos riscos

INTRODUÇÃO

Por que tanto se fala de eventos climáticos extremos?

Não é novidade que a ação antrópica tem interferido fortemente na natureza, e esse processo tem se intensificado cada dia mais na modernidade. Tornou-se cada vez mais frequente ouvir sobre a ocorrência de secas catastróficas, geadas, temperaturas elevadas, tempestades e outros fenômenos extremos.

Porém o que fica evidente é a interferência direta desses processos na agricultura, uma vez que 60% a 70% das variações na produção agrícola são decorrentes de condições atmosféricas, por exemplo. Assim, à medida que os eventos climáticos tornam-se mais extremos, maiores são as chances de haver variabilidade na produção, e menor a previsibilidade das mudanças.

Os eventos climáticos que mais interferem na produção agrícola

É possível destacar alguns dos fenômenos que exigem mais atenção por parte do produtor rural, e que encontram-se sob risco de intensificação:

  • Chuvas intensas – precipitações excessivas provocam diversos danos, tais como erosão do solo, alagamento da lavoura, prejuízos à oxigenação de raízes, atraso nas operações de plantio e colheita, entre outros problemas;
 
  • Ondas de calor – são períodos de temperaturas extremamente elevadas em relação à média, que podem provocar aumento da evapotranspiração, estresse hídrico e redução da fotossíntese;
 
  • Estiagem e seca – são períodos de precipitação abaixo da média, que podem causar redução da disponibilidade de água no solo, comprometimento da germinação, diminuição no crescimento e perda de produtividade;
 
  • Geadas – causam grandes prejuízos econômicos, devido à morte de tecidos vegetais, aos danos em folhas e frutos e à redução do crescimento;
 
  • Ventos fortes e tempestades – representam riscos importantes para a lavoura, pois podem provocar o acamamento de culturas, a quebra de galhos e frutos e danos a casas de vegetação e outras infraestruturas.
 
 

O papel da agrometeorologia

Diante desse cenário, a agrometeorologia desempenha um papel fundamental ao monitorar as condições atmosféricas e fornecer informações que auxiliam o produtor na tomada de decisão. Ferramentas como previsões meteorológicas, balanço hídrico, monitoramento de eventos extremos e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) contribuem para reduzir perdas e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos.

 

Posicionamento em busca da resiliência

A resiliência de uma propriedade rural diante dos eventos climáticos extremos depende da atuação conjunta de manejo, planejamento e aplicação de informações agrometeorológicas:

  •  Uso da informação agrometeorológica – ferramentas como previsões do tempo, monitoramento climático e boletins agrometeorológicos permitem que o produtor planeje o plantio e a colheita, acompanhe períodos de déficit hídrico, antecipe eventos extremos, programe a irrigação e reduza riscos operacionais;
 
  • Escolha adequada das culturas e cultivares – a seleção de espécies e variedades adaptadas às condições climáticas locais é uma importante medida de adaptação, pois cultivares mais tolerantes à seca, ao calor ou a determinadas doenças podem reduzir perdas e aumentar a estabilidade da produção;
 
  • Manejo eficiente de recursos hídricos – a gestão da água é uma das principais estratégias para enfrentar períodos de estiagem, que inclui irrigação planejada, monitoramento da umidade do solo, armazenamento de água, conservação da umidade do solo e manejo adequado da drenagem em períodos chuvosos;
 
  • Conservação dos solos –  tanto em períodos de seca como de chuvas intensas, um bom manejo do solo melhora a infiltração e a retenção de água, além de conter a erosão, o que envolve práticas, como plantio direto, rotação de culturas, manutenção de cobertura vegetal e terraceamento;
 
  • Planejamento baseado no risco climático – ferramentas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) auxiliam na definição das épocas de plantio mais adequadas para cada cultura e região, o que permite reduzir a probabilidade de perdas, aumentar a segurança da produção e orientar decisões sobre crédito e seguro rural;
 
  • Agricultura de precisão – envolve tecnologias que fortalecem a capacidade de adaptação das propriedades rurais, tais como estações meteorológicas automáticas, sensores de solo, imagens de satélite e drones, de forma que as informações geradas em tempo real tornam o manejo mais eficiente;
 
  • Gestão integrada do risco – é imprescindível a adoção de estratégias econômicas e de planejamento, como a contratação de crédito rural, a diversificação da produção e o planejamento financeiro.
 
Segundo o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), a adaptação mais eficaz ocorre quando diferentes estratégias são adotadas de forma integrada, considerando as características locais e as necessidades de cada propriedade.
 
 

Considerações Finais

Os eventos climáticos extremos têm se tornado um dos principais desafios para a agricultura brasileira, afetando diretamente a produtividade, a qualidade das culturas e a sustentabilidade dos sistemas produtivos. Esse cenário exige que o setor agropecuário esteja cada vez mais preparado para lidar com a variabilidade climática e seus impactos.

Nesse contexto, a agrometeorologia se destaca como uma importante aliada do produtor rural, fornecendo informações que auxiliam no planejamento e na tomada de decisões. Ferramentas como previsões meteorológicas, monitoramento climático, balanço hídrico e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático contribuem para reduzir incertezas e minimizar prejuízos decorrentes de condições adversas.

Além do uso dessas ferramentas, a adoção de práticas conservacionistas, o manejo eficiente dos recursos hídricos, a diversificação dos sistemas produtivos e a incorporação de novas tecnologias fortalecem a capacidade de adaptação das propriedades rurais. Essas estratégias não eliminam os riscos climáticos, mas aumentam a resiliência da produção agrícola diante de um cenário de mudanças no clima.

Por fim, diante das projeções apresentadas pela comunidade científica, investir em conhecimento, inovação e planejamento climático deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser uma necessidade para a agricultura do futuro. Nesse cenário, a agrometeorologia desempenha um papel estratégico ao conectar ciência e prática, contribuindo para uma produção agrícola mais eficiente, sustentável e preparada para os desafios das próximas décadas.

Mais do que prever o tempo, a agrometeorologia permite antecipar riscos e transformar informações climáticas em decisões estratégicas, e, nessa conjuntura, o papel do profissional do agro é auxiliar produtores a enfrentar os desafios de um clima cada vez mais variável e a construir uma agricultura mais resiliente e sustentável.

Referências

ASSAD, E. D.; MARTINS, S. C.; BELTRÃO, N. E. M.; PINTO, H. S. Adaptação e resiliência de sistemas agrícolas às mudanças climáticas locais e eventos extremos: uma revisão integrativa. Pesquisa Agropecuária Tropical, Goiânia, v. 52, e72899, 2022. Disponível em: https://revistas.ufg.br/pat/article/view/72899. Acesso em: 17 jun. 2026.

BERLATO, M. A.; CORDEIRO, A. P. A. Sinais de mudanças climáticas globais e regionais, projeções para o século XXI e as tendências observadas no Rio Grande do Sul: uma revisão. Agrometeoros, Passo Fundo, v. 25, n. 2, p. 273-302, 2017.

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. MONTEIRO, J. E. B. A.; OLIVEIRA, A. F.; NAKAI, A. M. (org.). TIC em agrometeorologia e mudanças climáticas. Brasília, DF: Embrapa, 2014. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1010728/tic-em-agrometeorologia-e-mudancas-climaticas. Acesso em: 17 jun. 2026.

Intergovernmental Panel on Climate Change. Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: IPCC, 2023. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar6/syr/. Acesso em: 17 jun. 2026.

SEVERO, C. M.; GRISA, C.; MARQUES, I. P. Mudanças climáticas e produção de alimentos: evidências para a elaboração de políticas públicas. Revista de Política Agrícola, Brasília, DF, v. 32, n. 1, p. 1-20, 2023.

Autora:

Mariana Prata – Assessora de Marketing